Livro: Testemunhas da China
Um retrato sobre a China, país cheio de contradições, com mais de 1 bilhão de pessoas, cuja cultura é milenar, porém que engatinha em alguns temas. Talvez se pudesse definir desta maneira o livro , escrito pela jornalista chinesa Xinran e publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
O livro é resultado de uma longa pesquisa e de uma seleção de entrevistas com a geração dos “avós e pais” chineses. A população chinesa, tão diversa, é representada por diversas pessoas, pertencentes à variadas classes sociais, como a general Phoebe, a qual nasceu nos Estados Unidos e pertencia a uma família com tradição acadêmica; uma vendedora de ervas medicinais; uma acrobata; um sobrevivente da Longa Marcha; uma sapateira que conseguiu enviar os filhos para as melhores universidades chinesas. A autora esclarece o motivo que a levou a escrever a obra: “Estou convencida de que será nossa obrigação responder aos mais jovens caso aconteça uma ruptura entre gerações. Sinto que tenho uma responsabilidade pessoal nisso, que alguns poderão considerar ingênua ou risível. Quando os jovens envelhecerem talvez sintam que foram uma geração perdida. Poderão nos culpar, mesmo sem entender por que fazem isso. Isso já aconteceu na história recente: muitos jovens chineses não acreditam que seus pais tiveram um passado de glórias nem reconhecem os valores que as gerações passadas tinham em alta conta, e podem chegar ao ponto de não encontrar meios para confirmar o que aconteceu a seus pais no passado. (…) O que estou tentando fazer é introduzir, numa sociedade que permaneceu congelada por milhares de anos, a discussão de novos temas, ‘jatos de água fresca’, de modo a permitir a contrapartida dessas gerações que assistiram a mudanças dramáticas ao longo dos últimos cem anos; contracorrentes da história, da verdade, dos valores e crenças de uma outra era.”
Na verdade, há também um motivo pessoal. A própria Xinran foi uma das vítimas da Revolução Cultural e da política chinesa. Ela diz que via que existia um sentimento de dor e culpa que os pais tinham em relação aos filhos. “Entre as gerações mais velhas, há muita gente que se sente assim na China, e esse sentimento se apresentou, em maior ou menor grau, nos rostos de quase todos os velhos que entrevistei: no coração, uma ferida aberta por dias e noites de culpa. As crianças tinham se tornado vítimas da devoção ao trabalho de seus pais, seus anos inocentes de infância sacrificados no altar da política. Sou uma delas; meu pai e minha mãe estiveram sempre tão envolvidos em suas carreiras que nunca conseguimos reunir a família toda para comemorar meu aniversário”, comenta.
Quando se lê Testemunhas da China pode-se começar a entender – e criticar menos – os motivos das antigas gerações terem acreditados tanto em Mao-Tse Tung. Também pode ser verificado todos os tipos de privações pelas quais passaram algumas gerações para que a China se tornasse uma nação com uma forte economia atualmente. Há, no entanto, resquícios daquela obediência cega ao partido. “Tenho a impressão de que esses ‘Não falo sobre política’ e ‘Não sei ao certo’ devem ser especialidades chinesas. Ninguém quer ser flagrado a todo momento contando uma história cheia de furos e enganos.”
“Quando me mudei para a Inglaterra, em 1997, tinha orgulho da velocidade com que a China, e suas cidades em particular, estava mudando. Mas, depois de ver o cuidado com que a Europa tentava preservar vestígios do passado, comecei a ficar incomodada com a afobação grosseira de meu país para destruir o velho e promover o novo. Via agora que esse nosso império milenar estava sendo reconstruído por modernizadores irresponsáveis cuja referência cultural era o McDonald’s. Nas duas décadas desde que Mao morrera, a modernização havia feito estragos pesados em todas as cidades chinesas, e os arrogantes planejadores locais ainda insistiam alegremente na destruição sem escrúpulos do passado antigo”, opina Xinran sobre o rápido crescimento na China.
Xinran mostra-se patriota e bastante confiante no povo chinês. “No século XX, a China passou pelo caos da guerra e do dissenso político, o que levou o país e seu povo, depois de quase cem anos dessa experiência, a exaustão, e sua infraestrutura, à beira da paralisia. Em 1981, um grupo de economistas internacionalmente conhecidos previu, numa publicação do governo chinês, que levaria pelo menos um século para que a China superasse sua pobreza. A previsão atraiu considerável indignação popular, despertando a reflexão séria e o trabalho duro há muito dormentes nas ações do governo. Digo isso porque não foram precisos trinta anos, a partir daquele momento, para que o país se alçasse à posição de superpotência emergente, com isso arrastando para si os olhares do mundo.”
Xinran não apenas escreveu como é uma Testemunha da China